Felipe Fulanetto

Santidade, impulso missionário

SANTIDADE, IMPULSO MISSIONÁRIO

SANTIDADE, IMPULSO MISSIONÁRIO

Felipe Fulanetto[*]

 

 

Resumo: Neste artigo pretendemos demonstrar historicamente, teologicamente e biblicamente a visão missiológica wesleyana de como uma vida santa torna-se o maior instrumento de impulso missionário.

 

Palavras-chaves: santidade, John Wesley, wesleyanismo, missionário, missão de Deus.

 

Abstract: This article aims to demonstrate historically, theologically and biblically  the missiological Wesleyan vision of how a holy life becomes the greatest missionary impulse tool.

 

Keywords: holiness, John Wesley, Wesleyanism, missionary, mission of God.

 

1. INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, o desenvolvimento da ciência Missiologia tem passado por uma revolução no avanço do conhecimento e da ampla difusão de seus ideais. Nomes como Christopher Wright, David Bosch, Ralph Winter, Lesslie Newbigin, Paul Hibert, Eugina Nida entre outros, fizeram – sem hipérbole – maravilhas e revolucionaram os conhecimentos bíblicos-missiológicos-antropológicos. É praticamente inconcebível hoje um missionário ir para a sua área de atuação sem nenhum conhecimento antropológico cultural prévio, graças a Paul Hiebert. Todos que amam missões deve ter ouvido em algum momento dos povos não alcançados, isto por causa dos estudos de Ralph Winter. Os leitores afincos da década de 90 em diante, com certeza se maravilharam com o magnum opus, “Missão Transformadora”, de David Bosch. O mesmo poderíamos dizer de Wright, Newbigin e Nida, onde cada um contribuiu grandemente aos conhecimentos missiológicos no âmbito global.

No entanto, torna-me peculiar ao analisar que majoritariamente os líderes e pensadores missiológicos mundiais são oriundos de escolas teológicas calvinistas/luteranas/anglicanas e de igrejas históricas. Será que a missão não é enfatizada fora desse bojo teológico-eclesiástico? São os calvinistas/luteranos[JA1] /anglicanos mais eruditos que outras escolas teológicas? Honestamente, a minha resposta é não para ambas as perguntas. Creio que nossos irmãos arminianos, wesleyanos, ortodoxos, coptas, asiáticos, africanos etc. têm conhecimentos riquíssimos para acrescentar a missiologia global.

Nesse presente artigo, pretendo acrescentar dentro do oceano de conhecimentos, um pouco do que a teologia arminio-wesleyana pode contribuir. Vale ressaltar que como pastor e missionário da Igreja do Nazareno lançarei uso da sua história e prerrogativas como ponte para meus argumentos. Pretendo aqui demonstrar historicamente, teologicamente e biblicamente que a santidade é uma ação divina sobrenatural que leva a todos que são santificados à abraçarem a causa missionária. Por isso, a frase máxima que defenderemos é: santidade, impulso missionário.

2. BASE HISTÓRICA

Para melhor compreendermos o contexto da teologia wesleyana e sua influência massiva para o movimento missionário, devemos narrar, de uma forma sucinta, o Movimento de Santidade (Holiness Movement), comumente conhecido como Avivamento de Santidade ou Grande Despertamento (divididos em dois períodos).

O ícone principal de todo o Movimento de Santidade é o inglês John Wesley (1703-1791), filho de um pastor anglicano e de uma exemplar mãe, a Susanna Wesley. O conhecido pregador de multidões e precursor do Metodismo, na verdade iniciou sua jornada ministerial como um simples pastor anglicano que teve uma frustrada experiência missionária nos EUA. Somente em 1738 depois de seu período entre os índios americanos, na atual famosa rua Aldersgate, que Wesley sentiu, em suas próprias palavras, “que confiava em Cristo, e somente nele, para minha salvação, e foi-me dada a certeza de que Ele havia tirado meus pecados, os meus, e havia me salvado da lei do pecado e da morte”. (GONZÁLEZ, 2009, p. 349)

Essa experiência conhecida como “coração aquecido” narrado por Wesley, posteriormente é dogmatizado na teologia como Batismo do Espírito Santo ou Inteira Santificação. É nesse prisma espiritual do pietismo que todo o Movimento de Santidade subsequentes baseou-se: experiência mística de transformação e perdão dos pecados, levando os seus adeptos à santidade de coração e ação. O grande avivamento que os irmãos John e Charles Wesley junto George Whitefield lideraram no século XVIII, caracterizou-se pela pregação de leigos, testemunho, disciplina, ação social e círculos de discípulos dedicados, conhecidos por “sociedades”, “classes” ou “bandos”. Enquanto que a influência teológica era caracterizada por regeneração pela graça, santificação e testemunho do Espírito quanto à certeza da salvação (Manual da Igreja do Nazareno 2009-2013, pp. 14-15).

Engana-se quem afirmar que experiências místicas, como as de John Wesley e seus seguidores, não leva as pessoas a realizarem ações missionárias concretas. Foi esse movimento o que deu origem ao interesse da Igreja na totalidade geográfica do mundo, o qual desviou o olhar do velho continente e destinou seus esforços para todo o planeta (GONZÁLEZ, Justo L.; ORLANDI, Carlos Cardoza, 2008, p. 224). Mateo Lelièvre, na sua obra biográfica de Wesley nos narra afirmando que:

“Calcula-se que nos nove últimos meses do ano de 1739 ele pregou cerca de 500 vezes, das quais somente umas oito ou dez foram nas igrejas (...) Wesley aceitou a vida missionária como um dever, e sabia transformar a sua obrigação em trabalho verdadeiramente agradável.” (1997, p. 79; 202)

González salienta que um dos pregadores mais distintos dos metodistas foi sem dúvida o Francis Asbury, o qual pregou os incríveis 16.500 sermões, ordenou pelo menos 4.000 pregadores e viajou meio milhão de quilômetros (2008, p. 222). De acordo com Redford e Gene Van Note, no Segundo Grande Avivamento de Santidade liderado por Charles Finney e Phoebe Palmer, o ano de 1858 foi o mais grandioso na história do evangelismo de santidade. Timothy Smith corrobora dizendo que mais de meio milhão de pessoas se converteram a Cristo, também centenas de milhares de pessoas foram inspiradas a buscar a santidade de coração e vida. O avivamento de 1858 foi tão intenso e profundo como o de Whitefield e Wesley em 1740. (pp. 44-45)

A influência do movimento de santidade ao movimento missionário não para por aqui. Um dos mais proeminentes missionários foi Thomas Coke (1747-1814), o qual é considerado o pai das missões metodistas, viajou incansavelmente pelo EUA, esteve diversas vezes na África e Índia, sempre pregando a palavra de Deus e levando a doutrina de santidade. O seu fervor missionário levou a outros serem enviados como missionários em diversas partes do globo terrestre. A, então, nova República Federativa do Brasil em 1836, recebeu seus primeiros missionários metodistas oriundos dos EUA, R. Justin Spaulding e posteriormente Daniel Parish Kidder e R. M. Murdy. (CALDAS, Carlos, 2009). O avanço das missões metodistas é considerado como uma das principais fontes do movimento missionário protestante da história (GONZÁLEZ, Justo L.; ORLANDI, Carlos Cardoza, 2008, pp. 222-223). Tudo isso derivado de um encontro com Espírito Santo na rua Aldersgate que santificou o coração de um jovem pastor anglicano.

3. BASE TEOLÓGICA

Passando pela parte histórica devemos agora nos ater na fundamentação da base teológica da santidade como impulso missionário. A doutrina de santidade é algo indiscutível dentro da teologia cristã, ela está presente tanto na teologia calvinista, católica, ortodoxa, pentecostal e wesleyana. Todos creem nessa verdade bíblica, porém divergindo na compreensão sobre tal assunto (GUNDRY, 2001, p. 9). Dentre todas as definições, a wesleyana consiste em afirmar que santidade é a graça de Deus demonstrado em nós, restaurando a imagem de Deus e aperfeiçoado o amor para o Pai e ao próximo. De acordo com esse pensamento Knight define:

“A inteira santificação é amor eliminando o pecado, amor enchendo o coração e abrangendo toda a capacidade da alma. (...) O amor da pessoa santificada não é uma simples emoção ou sentimento; é o desejo ativo do bem-estar dos outros.” (KNIGHT, 2010, pp. 146-147)

A terminologia teológica que Knight usou, Inteira Santificação, também é conhecido como Batismo do Espírito Santo. Como podemos observar, na tradição teológica wesleyana, Batismo do Espírito Santo não é um êxtase emocional ou uma experiência sobrenatural externa, no entanto, é uma obra da graça, subsequente a regeneração, tocando o pecador para transformá-lo em santo e purificado. A cristologia wesleyana também é relativamente diferente das outras escolas teológicas. Enquanto que as demais enfatizam o perdão e a justificação como o motivo da morte vicária de Cristo na cruz, na visão de Wesley “o ponto não era somente perdão e justificação (sic), mas curar a doença moral do pecado o qual a morte e ressureição de Jesus conquistou” (SNYDER, 2011, p. 78). Isto significa que a cura para o pecado é possível ser conquistado hoje e não somente após a morte.

Por conseguinte, entendemos que Deus gera no homem santificado um amor santo o qual faz amar não somente a Deus de todo coração, mas também amar ao próximo como a ti mesmo (Mc 12:30-31). Esse amor que é gerado através da obra do Espírito Santo, faz de nós um povo santificado para a obra missionária, assim como Paulo diz a Timóteo que temos uma vocação santa (II Tm 1:9) e o amor é o poder da Igreja no mundo (cf. Efésios 3:17-79) (ENGEN, 2008, p. 67). David Bosch faz uma declaração excelente acerca do amor na obra missionária:

“Creio ser inquestionável que a motivação básica da maioria dos missionários os residia em um genuíno sentimento de preocupação com as outras pessoas; eles sabiam que o amor de Deus fora derramado copiosamente em seus corações e estavam dispostos a se sacrificar por aquele que dera sua vida em favor deles.” (BOSCH, 1988, p. 349)

Por causa deste amor, historicamente e teologicamente, ser wesleyano é demonstrar amor ao pobre, é lutar pela justiça e equidade na sociedade. Ivan Abrahams acertadamente diz que “a preocupação de Wesley com as pessoas à margem da sociedade, os pobres, os doentes e com os presos assim como também o seu compromisso em ‘uma viagem para baixo’ para criar um novo mundo com os pobres, nos seus termos e em seus lugares, está bem documentada” (2009, p. 80).

De acordo com Mckenna "ter o espírito de compaixão pelo pobre" foi à forma como eram "conhecidos os wesleyanos" (2000, p. 80). A santidade de Deus é acompanhada pela justiça social, ela é a santidade de Deus em ação (BARROS, 2003). Dr. Phineas Bresee um dos fundadores da Igreja do Nazareno, pontua sem titubear a razão da igreja, afirmando que “a Igreja do Nazareno [tem] o objetivo declarado de pregar santidade, e levar o evangelho aos pobres” (BANGS, 2013). Em outra ocasião, ele exclamou uma bela oração: "não pedimos nem desejamos, templos caros. Desejamos a manifestação do poder, a glória e a presença divina. Regozijamo-nos no Senhor. Neste simples templo os pobres serão ricos, e os quebrantados se regozijarão. O céu nos encontrará aqui e encherá nossas almas". (2013, p. 53)

Wesley afirmou que "o evangelho de Cristo não conhece outra religião, se não a social; nem outra santidade, se não a santidade social". Mckenna chega à conclusão afirmando que "toda separação entre a santidade pessoal e a social é antibíblica", se uma é desconectada da outra, logo "nenhuma tem sentido" (2000, pp. 22-23). Peter Storey pontuou que “John Wesley fez uma descoberta revolucionária que você não pode ser realmente cristão ao menos que se envolva com os pobres da terra” e posteriormente definiu um cristão wesleyano como “aquele que fez uma opção intencional para ficar ao lado dos pobres e marginalizados da sociedade, contra os principados e potestades que possuem todos eles em cativeiro”. A teologia de Wesley radicalmente influenciou a teologia e ética mundial, demostrando teologicamente e pragmaticamente que o cristão santo, vive a santidade em ação, isto é, o amor manifestado. (Abrahams, 2009, pp. 81-82)

Ainda dentro da base teológica, devemos ressaltar outro aspecto teológico relevante que a teologia wesleyana contribui para a missiologia global, a sua interpretação da Missio Dei. Depois que Karl Barth (1886-1968) compreendeu que o dono da missão não é a Igreja, e sim o próprio Deus, a missiologia teve um grande salto paradigmático. Entende-se como Missão de Deus, quando dizemos que a missão não pertence à Igreja, mas do Deus missionário, que escolhe e envia; começa para e de Deus, a primeira porque tudo e todas as coisas foram feitas para Deus, para a glória de seu santo nome; e o segundo porque o dono, realizador e o enviador é somente Ele.

Qual seria então a Missio Dei? Será a reconciliação do homem com Deus a Missio Dei? Ou será que é a expansão do seu Reino? Ou as missões da igreja? Ou talvez a demonstração do seu amor? Ou ainda por último, seria a santidade a missão? Nenhuma das quatro é a Missio Dei, ainda que as mesmas estão intrínsecas nela. Estou em concordância com John Piper que "as missões existem porque não há adoração, ela sim é fundamental, pois Deus é essencial e não o homem". (2001, p. 13) Adoração, portanto, é a Missão de Deus. Nós fomos criados com propósito de adorar ao nosso Criador. O alvo fundamental é a glorificação do seu santo nome em todos os povos. O seu desejo é ser exaltado e louvado.

No entanto, permita-me discorrer o conceito da Missio Dei através de uma hermenêutica bíblica wesleyana na missiologia. Primeiramente, não é de qualquer forma que devemos glorificar a Deus. Jesus ao falar com seus discípulos sobre a “Oração do Pai Nosso”, recitou certas palavras de extrema importância para a Missão de Deus.

Portanto, orai vós deste modo: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome (Mateus 6:9, ênfase dado pelo autor)

Cristo ensinou aos seus discípulos que Deus deseja que nós santifiquemos o seu nome. Porém, como nós, que nascemos no pecado, podemos santificar o nome daquele que é Santo por excelência e natureza? A resposta desta pergunta está na profecia feita por Ezequiel ao povo de Israel há mais de 500 anos antes das palavras de Jesus. Vejamos alguns dos versículos do texto completo de Ezequiel 36:16-28:

E, chegando às nações para onde foram, profanaram o meu santo nome, pois se dizia deles: São estes o povo do Senhor, e tiveram de sair da sua terra. Mas eu os poupei por amor do meu santo nome, que a casa de Israel profanou entre as nações para onde foi.

[...] e eu santificarei o meu grande nome, que foi profanado entre as nações, o qual profanastes no meio delas; e as nações saberão que eu sou o Senhor, diz o Senhor Deus, quando eu for santificado aos seus olhos. Pois vos tirarei dentre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra. Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias, e de todos os vossos ídolos, vos purificarei.

[...] Ainda porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças, e as observeis. (vs. 20-21,23-25,27, ênfase dado pelo autor)

A mensagem de Deus ao povo de Israel é clara e contundente: vocês me desobedeceram profanando o meu santo nome e por causa disto, as demais nações zombaram do meu nome; e por amor a minha santidade, eu não permitirei que isto continue, então, os resgatarei de sua imundícia e os tornarei santos através de um novo coração feito pelo Espírito Santo.

As atitudes de Israel refletiam que tipo de Deus eles serviam, por isso, se os judeus viviam na prostituição, o nome de Deus era profanado, e consequentemente, os demais povos criam que o Deus de Israel era um deus lascivo. Contudo, da mesma forma essa regra é aplicável caso Israel vivesse de acordo com os estatutos de Deus, vivendo uma vida santa.

Entretanto, sabemos que o homem é impossível viver corretamente toda a lei, logo, seria necessário algo a mais para que eles pudessem viver santamente. Entendemos então que, para que o nome de Deus seja santificado entre as nações, o povo que é chamado pelo seu nome, deve ser santo; em outras palavras, para que a oração de Jesus seja cumprida, a profecia de Ezequiel deve ser executada, e esta profecia é realizada com a obra santificadora do Espírito Santo em nós.

Chegamos então à conclusão que, a Missão de Deus é que nós o glorifiquemos, porém não existe adoração sem santificação, somente podemos viver uma vida de adoração, se vivemos uma vida de santidade. A santidade e adoração andam juntas para o mesmo propósito: glorificar o nome santo de Deus entre as nações.

4. BASE BÍBLICA

A mensagem de santidade – o perfeito amor para Deus e para seu próximo, como ensinou Wesley e seus seguidores – provou ser poderosa e transformadora no século XVIII e XIV na Inglaterra e EUA respectivamente. No entanto, ainda será que ela é relevante para os dias atuais? Seria possível termos uma vida santa como estes homens e mulheres tiveram? Sim, é possível, pois é bíblico. Nessa última etapa do nosso estudo iremos lançar bases bíblicas para advogar nossa tese central.

Na etapa anterior, chegamos à conclusão que, a Missão de Deus é que nós o glorifiquemos, porém não existe adoração sem santificação, somente podemos viver uma vida de adoração, se vivemos uma vida de santidade. A santidade e adoração andam juntas para o mesmo propósito: glorificar o nome santo de Deus entre as nações. Por isso, Romanos 11:36 e Ap 4:8;11 são textos importantes que nos revelam a centralidade da glória de Deus sobre todas as coisas:

Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Romanos 11:36)

Os quatro seres viventes tinham, cada um, seis asas, e ao redor e por dentro estavam cheios de olhos; e não têm descanso nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, e que é, e que há de vir. [...] Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas. (Apocalipse 4:8;11)

Veja também outros versos que corroboram para a Missão de Deus de ser glorificado: Ef 1:10, Ef 1:23; Ef 4:10; Fl 2:9-11; 1Co 15:28; Ap 22:13; e Hb 2:10. Devemos compreender que Deus criou todas as coisas para glorificar o seu santo nome, porém o pecado obstruiu essa adoração, e decorrente disto, as missões existem com o propósito de trazer as pessoas para glorificar o Santo nome de Deus.

O discípulo amado, João, nos apresenta o sacrifício de Cristo em uma perspectiva ímpar, mostrando a sua obra como purificador do pecado, habilitando para uma vida reta e santa, porém não somente aos eleitos, e sim, a todos aqueles que pela fé, responderem positivamente a graça divina. Richard Taylor explica com maestria que a interpretação correta da expiação será “incompleta se não entendê-la tanto como extensiva (a todos os humanos) e tanto intensiva (para todos os pecados)” (TAYLOR, 1999). Os seguintes versículos nos apresentam exatamente a interpretação correta que Taylor ressalta:

Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3:16);

Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro (I Jo 2:2)

Ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (I Jo 4:10c)

Vejamos, agora, na ótica wesleyana um dos textos mais utilizados no meio missionário, a declaração de Jesus sobre o manifestar profético do Espírito Santo em Pentecoste, utilizando um dos termos teológicos para inteira santificação o Batismo com Espírito Santo, relatado em Atos

“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra.” (vs. 1:8)

Nesse trecho acima como já foi dito, Jesus está profetizando sobre a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecoste, assim como está escrito em Lucas 24:49, onde os seus discípulos iriam ser cheios de seu poder e autoridade. O significado do poder relatado nesse versículo é duplo. Primeiro, diz respeito ao poder de vencermos o pecado e vivermos uma vida santa; e, segundo, o poder que recebemos para realizarmos a obra evangelizadora (sermos testemunhas) ao mundo.

No primeiro ponto ao sermos santificados pela oferta de Jesus Cristo (Hb 10:10) mediante o Espírito Santo (Hb 10:15), somos capazes de vencer o pecado (Rm 8:2), logo somos obedientes aos mandamentos e aos desejos de Deus, e, obedecer, implica em seguir a ordem de Jesus em Mateus 28:18-20 e Marcus 16:15, o qual claramente nos ordena “pregar, fazer discípulos de todas as nações, batizar e ensinar”.

No segundo ponto, que diz respeito de sermos testemunhas, está intrínseca a questão do Homem ser restaurado à imagem de Deus, pois somente podemos ser testemunhas daquilo que conhecemos e vivemos. Quando o pecado entrou no mundo a imago Dei foi deformada e perdida (WILEY, Orton; CULBERTSON, Paul, 2009) e somente o lavar regenerador do Espírito Santo é que faz essa imagem ser restaurada (Ef 4:24; Cl 3:10; Tt 3:5). E, como Paulo aborda na epístola aos efésios que o nosso alvo é chegar a ter a estatura de Cristo (Ef 4:13) e também na oração de Jesus que nós fossemos um com Ele (Jo 17:21). Em todas essas passagens é demonstrada que a vontade de Deus é que sejamos como Ele, e na santificação Deus torna isso possível. Devemos ressaltar que em hipótese alguma essa semelhança com Deus é concernente a sua perfeição una e inigualável, mas sim, diz respeito a nossa semelhança e santidade cristã, conquistada através do nosso posicionalmente em Cristo, jamais pelas nossas obras.

Portanto, se nós somos transformados para sermos iguais a Deus, logo devemos ser um povo missionário, pois é fato que Deus deseja que todos se salvem (I Tm 2:4-6), que no protoevangelho (Gn 3:15) ele demonstra o seu desejo para que o homem seja resgatado e que no decorrer das escrituras continua esse fervor missionário (Gn 12:1-3; Sl 46:10; Is 65:1; Jl 2:28-32; Mt 28:18-20; At 1:8; At 13; Rm 1:8; Ap 7:9 etc.)

5. CONCLUSÃO

Com essa breve articulação missiológica desejo desafiar a todos para que o nosso dever como uma nação santa é proclamar as virtudes daquele que nos chamou (I Pe 2:9) e se de fato somos santos, logo devemos ser missionários santos, o qual cumpri cabalmente a Missio Dei que nos é outorgada (II Tm 4:7). E nesse ponto importante devemos esclarecer que, ser um povo missionário não implica em ser um povo que todos deverão ir no sentido de sair de sua terra natal, mas implica em ir no sentido de pregar a todos que estão na terra, seja aqui, ali e além. Com isso novamente afirmo: a santidade é o impulso missionário.


 

Bibliografia

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WILEY, Orton; CULBERTSON, Paul. (2009). Introdução à Teologia Cristã. Campinas: Casa Nazarena de Publicações.

 



[*] Felipe Fulanetto é bacharel em Teologia e mestrando em missiologia no CEM. Pastor e missionário pela Igreja do Nazareno, coordenador de pesquisas missionárias institucional da AMTB, pertence à equipe do projeto Vocacionados e do movimento VOCARE. Organizador e co-autor do e-book “Vocação e Juventude” publicado pela editora Ultimato.

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