Felipe Fulanetto

Santidade, impulso missionário

E SE JOHN WESLEY ESTAVA CERTO?

 

 

 

 

William H. Williamon escreveu um artigo intitulado “What if Wesley was right?” (E se Wesley estava certo?), dentro do livro “Our Calling to Fulfill” (Nosso Chamado para Cumprir), abordando os conceitos de John Wesley e suas implicações práticas para os dias atuais. Ele dialogou com a teologia de Wesley acerca de Deus e a Graça transformadora, afirmando que “se Wesley estava certo, então conferências sobre Wesley podem ser perigosas”[1], pois quando nos confrontamos com seus pensamentos teremos que rever nossas ações.

Tendo como inspiração o tema que Williamon levantou, parei para meditar em outras áreas que, se Wesley estava certo biblicamente e teologicamente, então, teremos sérios problemas com as nossas ações e pensamentos, pois não são somente as suas convicções, mas, em realidade, as convicções que o próprio Deus quer de nós. Em vista disso, enumerei cinco pontos que John Wesley pode nos instruir.

  1. ECLESIOLOGIA: o mundo é minha paróquia

O modo que Wesley enxergava a igreja é muito diferente do que normalmente temos visto. Para ele, a Igreja não é o templo que usamos para cultuar a Deus e os membros não são aqueles que entram no prédio. Vai muito além disso! Seu campo de atuação é o mundo inteiro e seu público para a pregação são todos aqueles que não conhecem a Cristo. Se Wesley estava certo, não devemos focar nossos esforços demasiadamente nos templos e prédios apainelados, mas investir nossos esforços e recursos humanos nos campos brancos que estão à espera dos trabalhadores.

  1. POBREZA: preferência aos desprovidos financeiramente

Uma das marcas mais nítidas na vida e ministério de Wesley é seu envolvimento com os pobres e os necessitados. De acordo com Mckenna "ter o espírito de compaixão pelo pobre" foi à forma como eram "conhecidos os wesleyanos".[2] A santidade de Deus é acompanhada pela justiça social, ela é a santidade de Deus em ação.[3] Devemos ressaltar que o amor de Cristo vai além de simplesmente querer uma troca ou de um proselitismo camuflado de ação social; o amor dEle é verdadeiro e real. Se Wesley estava certo, nossas igrejas devem amar, ajudar e resgatar os desprovidos financeiramente.

  1. EVANGELIZAÇÃO: pregação ao ar livre e em todos lugares

A história mostra que Wesley teve muitas dificuldades no início para aceitar a ideia de pregar ao ar livre, sendo somente depois de muita insistência do seu amigo George Whitefield[4] que ele começou a ir para as ruas, fábricas, praças e aonde o aceitarem. Porém, depois de convencido dedicou-se a finco à sua responsabilidade missionária, que de acordo com Lelièvre: “Calcula-se que nos nove últimos meses do ano de 1739 ele pregou cerca de 500 vezes, das quais somente umas oito ou dez foram nas igrejas (...) [Wesley] Viajava em média 5.000 quilômetros por ano, a maior parte deles a cavalo. (...) [ele] aceitou a vida missionária como um dever, e sabia transformar a sua obrigação em trabalho verdadeiramente agradável.”[5] Se Wesley estava certo, cada nação será nosso campo missionário, cada igreja será uma sociedade que envia missionários e cada membro aceitará sua responsabilidade missionária.[6]

  1. ECONOMIA: ganhe tudo o que puder, poupe tudo que puder e doe tudo o que puder

Uma das maiores dificuldades da sociedade moderna é se desfazer do apego financeiro. Na época de Wesley essa realidade não era diferente, e ele foi de encontro com qualquer tipo de pensamento e atitude gananciosa. Não foi por acaso que Wesley e seus companheiros foram apelidados pejorativamente de metodistas, pois seu estilo de vida era extremamente rigoroso, especialmente a parte financeira. Se Wesley estava certo, não ganhamos para ostentar, tão pouco poupamos para nos enriquecermos, mas utilizamos os recursos que Deus nos deu para investirmos no Reino dEle e para dividir o pão nosso com o nosso irmão desprovido.

  1. JUSTIÇA: a luta contra a escravidão.

Uma das contribuições mais significativas de Wesley para a sociedade é sua influência política contra a escravatura. O até então jovem William Wilberforce estava iniciando seus longos anos na carreira política e recebeu uma carta do respeitado pastor da Inglaterra, John Wesley, dizendo a ele que “Não se canse de fazer o bem. Eu sigo em frente em nome de Deus e no poder de Sua força, até que a escravidão americana (a mais vil que alguma vez viu o sol) possa ser banida diante dele.”[7] Wesley tinha convicção que o cristão deve lutar pelos seus direitos e dos outros, para que haja justiça no mundo. Se Wesley estava certo, nós cristãos nos envolveremos com a política não para obtermos poder, mas para que a retidão, a justiça e a equidade, sejam garantidas (Pv 2:9).

Talvez você esteja pensando “mas eu não devo concordar com todos os pensamentos de alguém, nem mesmo de Wesley”. É verdade que ninguém é imune a erros teológicos, doutrinários ou éticos. No entanto, eu te convido a pensar comigo, 1) nós, nazarenos, nos consideramos wesleyanos, não é verdade? 2) E somos wesleyanos por acreditarmos em sua teologia. 3) Se acreditamos na sua teologia é porque cremos ser correta. 4) Se é correta, devemos segui-la e ensiná-la. 5) Se iremos seguir e ensinar, devemos fazer integralmente e não parcialmente – sem omitir o que não nos agrada. Portanto, meu caro leitor, te convido a sobretudo ser um cristão que vive integralmente a missão de Deus nesse mundo caótico que necessita o manifestar da glória e amor de Cristo.

 

Por Felipe Fulanetto

 



[1] WILLIMON, William H. What if Wesley was right? In: Our Calling to Fulfill: Wesleyan views of the church in mission. Nashiville: Kingswood Books, 2009, p. 12.

[2] MCKENNA, David L., 2000. Wesleyanos en el Siglo XXI. Editora Casa Nazarena de Publicaciones, p.80.

[3] BARROS, Wilson Tadeu de, 2003. Teologia da Missão. Editora Descoberta, p. 36. 

[4] DALLIMORE, Arnaldo A. George Whitefield: evangelista do avivamento do século 18. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1990, p. 60.

[5] LELIÈVRE, Mateo. João Wesley Sua vida e Obra. São Paulo: Editora Vida Nova, 1997, p. 79, 202.

[6] MCKENNA, David L., 2000. Wesleyanos en el Siglo XXI. Editora Casa Nazarena de Publicaciones, p. 125.

[7] WESLEY, John. O diário de John Wesley. São Paulo: Arte Editorial, 2005, p. 383-387.

 

 

 

 

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