Felipe Fulanetto

Santidade, impulso missionário

A INQUIETUDE DOS QUE “VOLTARAM-MAS-QUEREM-IR”

     Choro, abraço, alegria, sorriso, tristeza, imposição de mãos e despedida. Essas e outros sentimentos percorreram dentro do meu coração no meu culto de envio. Lembro-me perfeitamente da palavra de Atos 13:1-3 que meu pastor pregou enquanto eu estava sentado nos bancos da igreja. Recordo-me dos inúmeros abraços intercalados com choros dos irmãos e principalmente da minha família ao se despedirem de mim. Também lembro do medo que percorreu nas minhas veias e mente quando estava dentro do aeroporto de Guarulhos pronto para zarpar para uma nova vida completamente diferente da que eu já tinha vivido. Tantas dúvidas e preocupações, mas uma certeza: de estar fazendo a vontade de Deus.

   Dias, semanas e meses se passaram depois desse episódio, o que era dúvida se tornou convicção e as preocupações, se tornaram propulsões para minha fé. Vidas foram transformadas – principalmente a minha – igrejas foram plantadas, novas amizades feitas e principalmente o nome de Jesus foi anunciado. Sim, erros foram cometidos, incluindo os meus, mas aquele sentimento de estar no centro da vontade de Deus era inconfundível. Sabe o coração pleno de alegria ao ponto de você está pronto para morrer por estar fazendo tudo que Deus te mandou fazer? Então, era o meu sentimento.

    No entanto, esse texto não tem a ver com a alegria de estar no campo, mas justamente o oposto: a inquietude dos que voltaram, mas querem ir. Não, também não estou falando dos que recusaram de servir a Deus no campo missionário e depois de anos se arrependeram. Esse texto é sobre aqueles que foram para o campo missionário, experimentaram da maravilhosa dádiva de anunciar o amor de Cristo para os que pouco ou nada ouviram dEle, mas que agora se encontram novamente na sua “casa” com a constante inquietude de ir embora flertando o coração.

   Por algum motivo, Deus na sua soberania e onisciência nos traz de volta para nossa “casa”, sem nos perguntar o que queremos e quais nossos desejos; Ele simplesmente manda, e, nós, como bons servos, obedecemos (com relutância, é verdade). Seja qual for a forma que Deus te trouxe de volta, um diagnóstico médico, os pais envelhecidos, o problema judicial para resolver, os filhos em fase da faculdade, problemas com a liderança ministerial, o corte do sustento missionário, problemas pessoais, o fim do seu período ministerial ou qualquer outro motivo; nunca será tão simples lidar com isso. Aquele sentimento de querer partir, de arrumar as malas, pegar o passaporte e mudar-se para sabe-lá-onde-Deus-quer, continua latente dentro do nosso coração, mesmo já superando todo o choque cultural reverso (o terror de todos nós). E te digo, não há nada que apague isso; nada!

   Quantas vezes chorei e clamei a Deus: “Mande-me de volta, Pai. Pode ser a onde quiser, mas mande-me para o campo missionário”. Desde que voltei tentei mudar-me para o Chile, aceitei convide para pastorear uma igreja em Indianapolis, submeti para uma seleção de missionário mobilizadores para região América do Norte e inúmeras vezes sonhei com outros projetos. No entanto, até o presente momento, nada aconteceu e muitas vezes temos a impressão de que nunca acontecerá. Para nós, os que “voltaram-mas-querem-ir”, parece como se tivéssemos comichão, um formigamento que nos leva a querer sair; sempre buscando um motivo para ir mais além, tal como Paulo escrevendo uma carta para os romanos com desejo de visitá-los, mas finalizou que estava almejando a Espanha.

   Creio que cada vez que nos envolvemos com o ministério ocorre uma estranha fusão entre o que fazemos e o que eu somos, ao ponto de acharmos que uma coisa e a outra são uma só.  Começamos acreditar que toda a nossa vida se resume no nosso ministério, ao ponto que se não tivermos fazendo algo nos sentimos inúteis. Para aqueles que me conhecem, estar parado é a última coisa que alguém poderá me ver fazendo, mas, então, por que essa sensação de querer sair para o campo missionário continua? Se não estou sendo inútil onde estou, porque querer ir para os confins? E ainda mais, porque Deus não permite ir? Com tantas pessoas não querendo ir para os lugares mais remotos, perigosos e estranhos, e eu querendo ir, porque Deus não envia?

   Talvez esse texto seja mais de indagações, algo completamente atípico para alguém que escreve artigos teológicos e missiológicos que sempre tem as respostas. Mas a jornada vocacional é assim mesmo, de tempos e tempos temos nossas crises e o Espírito Santo de Deus com sua docilidade ímpar nos redobra as esperanças e coloca o nosso trem nos eixos. Já ouvi diversos missionários dizendo o mesmo sentimento; uns justificam que Deus deseja nos usar como excelentes mobilizadores missionários, pois demonstramos paixão e ousadia para ir; alguns apontam para a história de Oswald Smith, que queria ser missionário, mas Deus o escolheu para ser pastor da People’s Church (Toronto, Canadá) e desta forma investiu em milhares de missionários e tornou-se modelo de igreja para o mundo; há ainda alguns que dizem que Deus não permite ir para nos ensinar a depender dele e moldar nosso caráter e identidade em Cristo, nos desprendendo do “trabalho” e nos ligando ao Eterno.

   Seja qual for o motivo, nós podemos descansar na palavra que diz que é “boa, agradável, e perfeita vontade Deus” (Rm 12:2) e isso somente é possível se renovamos o nosso entendimento a luz do saber do Eterno. A jornada vocacional é como a lâmpada com sensor de movimento, que conforme vamos andando ela vai iluminando o nosso caminho. A cada passo que damos em direção a Deus, o próximo passo do nosso chamado é iluminado e quando olhamos para trás tudo faz sentido. Se você for como eu, um dos que “voltaram-mas-querem-ir”, continue andando em direção ao Senhor da Missão, pois Ele tem todas as respostas e certamente nosso futuro está em boas mãos. Lembre-se, Paulo tentou ir para Ásia, mas o próprio Espírito Santo o impediu (Atos 16:6), ele também quis desfrutar da presença dos irmãos em Roma, mas foi impedido diversas vezes (Rm 1:13). Parece-me que esse sentimento de não conseguir era comum no ministério de Paulo e também será no nosso. Muitas vezes os nossos sonhos, projetos e ministérios, são interrompidos dentro da linha temporal humana, para começar a percorrer no plano divino eterno. Em nada Deus é pego de surpresa, por isso, devemos compreender que nesse percurso, o dono é Deus, e nós, somos seus seguidores. No final, poderemos dizer “combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4:7) seja aqui ou nos confins da terra.

Home Estudos Editorial A INQUIETUDE DOS QUE “VOLTARAM-MAS-QUEREM-IR”

Rede Social